sexta-feira, 16 de março de 2007

Sinais


"Enfim te vejo. Enfim repouso em ti o meu olhar cansado." Esses versos de Bandeira me ocorrem quando entro em seu universo, quando enfim te encontro.

Poucas coisas são mais cultuadas que a paixão romântica. É bonito, dizem, estar apaixonado. Você retoma a criatividade embolorada. É capaz de até mandar flores e, mais ainda, de escrever versos lindamente medíocres. Capricha no penteado depois de anos de desleicho. Você se olha com renovado interesse no espelho. Refaz o guarda-roupas. Pode até se depilar para ficar na moda, by Beckham. Viagra talvez, quem sabe, tudo para não correr riscos de mau desempenho sexual. E todos com certeza cantam alto em seu carro as músicas adocicadas prediletas que colocam para ouvir e se inspirar neste momento mágico de deslumbramento.
A paixão é linda, é o que dizem.
A paixão simplesmente fecha nossos ouvidos. Só falamos. Não conseguimos escutar nada e ninguém fora dos limites do nosso amor. Tente conversar com um apaixonado. Ele não vai registrar nada do que ouvir. Ele não vai derramar uma mísera lágrima pela história mais triste que você lhe contar. Por isso, não venha me contar suas pitangas, como eu já disse - eu não irei registrar nada.

terça-feira, 13 de março de 2007

Conte contigo.

Uma cena de BELEZA AMERICANA me impressionou particularmente. O filme todo me fascinou, aliás. Tenho que vê-lo de novo. Acho sublime, comovedora aquela busca desesperada e vã do homem pela juventude perdida. Mandar para o lixo a carreira bem-comportada depois de uma conversa franca com o chefe dilbertiano e ir trabalhar numa lanchonete, sem metas e cobranças que fossem além de entregar com um sorriso o hambúrguer para o freguês. Comprar um carrão imprestável lindo de 20 anos atrás apenas para realizar um sonho que ficara lá longe num mundo que se perdera. E correr atrás de uma garota como se fosse, ele próprio, um garoto, e não um homem vencido pelo correr dos dias. Braços remando contra a correnteza, como escreveu Fitsgerald no final de Gatsby. Somos condenados a remar contra a correnteza, e só não encerro esta digressão aqui porque me ocorre uma frase cortante como a espada de MUSACHI, o maior dos samurais: o tempo nos tira as certezas que temos na juventude e, ao perdê-las, vai com elas uma ousadia petulente que é a maior das maldades do tempo, ainda que as certezas fossem, todas elas erradas. Mas era sobre a cena da primeira sentença que eu queria falar. A mãe frustada, que imagina encontrar a resposta para um casamento miserável nos braços de um amante engomado, diz para a filha depois de uma briga conjugal que terminou com pratos lançados na parede: "Você aprendeu a maior de todas as lições. Você aprendeu que tem que contar apenas com você mesma". Temos que contar com nós mesmos, e no entanto quase sempre depositamos nossa felicidade (ou nossa infelicidade) nos outros. Ninguém pode nos ajudar se nós próprios não nos ajudamos. Ninguém mesmo: nem a mãe, o pai, o amigo, o irmão, a namorada ou a mulher. Ninguém. Vivemos num mundo em que a solidão é tratada como um anátema um estigma, um mal a evitar. Um grande homem da Roma Antiga disse que jamais estava menos só do que quando estava só, entregue as reflexões. E no entanto poucas coisas nos enchem de tamanho horror quanto a solidão. É porque não contamos com nós mesmos - estamos sempre fugindo de nós mesmos. A única coisa que temos sob controle somos nós. Nossa mente e nossas ações.